Alpha Protocol
Eu tenho problemas com Alpha Protocol. Digo isto da mesma maneira que um gajo com um olho negro e uma mandíbula fracturada diz que tem problemas com a namorada. Alpha Protocol abusa – muito – da minha boa vontade, gasta-me o limite de crédito do cartão para comprar sapatos, e tenta envenenar-em com jantares demasiadamente temperados, mas não faz mal, porque o amo.
Tem o típico problema de todos os jogos da ex-Black Isle, Obsidian Entertainment. É um jogo cheio de falhas técnicas e de design, que apesar de ter sido adiado quase meio ano continua a parecer um produto inacabado. Mas por outro lado, aplica à corrente geração de videojogos os quase desaparecidos princípios de um bom roleplaying game de computador, e vai mais além no que toca a liberdade de escolha e consequências.
É que enquanto a Bethesda ou a Bioware prometem escolhas e consequência, a verdade é que elas são quase sempre ilusórias ou meramente cosméticas – no grande esquema das coisas, nenhuma das escolhas em Oblivion ou Fallout 3 interessou. O famoso exemplo é a cidade de Megaton em Fallout 3, cidade que podíamos optar por destruir, mas o impacto de tal acção praticamente não se sentiu no resto do jogo, acabando o jogador por ter acesso alternativo a facilidades e quests equivalentes ás que poderia obter na cidade.
Já em Mass Effect, as decisões adicionam cor à personagem, mas os resultados finais são quase sempre os mesmos, e fora um diálogo adicional ou diferente aqui e ali, o impacto das escolhas no primeiro jogo não se sentiu significativamente no segundo.
Alpha Protocol é radicalmente diferente quando jogado de forma diferente, uma, duas, três vezes. Comprar uma peça de informação sobre um vilão, por exemplo, não oferece um benefício passivo, mas dá a conhecer a personalidade do mesmo, e com base nisso pode-se adaptar uma determinada postura nas conversas com ele que o leva a respeitar-nos, e isso por sua vez pode evitar um confronto importante muito mais tarde no jogo. Mas não o fazer pode até iniciar dito confronto mais cedo, e abrir opções diferentes no futuro. E a tal informação até pode estar só disponível se tivermos feito determinados aliados anteriormente.
O que interessa transmitir é que, por uma vez e de uma forma que não via há quase uma década, aqui está um jogo com uma teia de interacções e variáveis tão complexa e significativa que faz com que cada decisão tenha realmente o peso e tensão devidos. Foi, pela primeira vez, um jogo em que ao chegar a um local e encontrar inimigos desconhecidos, tomei a decisão consciente de não usar força letal – eu tomei, não foi uma decisão arbitrária a que o jogo me forçou, ou sequer aconselhou – pois não sabia se eram realmente inimigos. E, graças a isso, no final da missão ganhei novos aliados, dos quais não teria sequer tomado conhecimento se tivesse agido de outra forma.
Portanto, sim, tomar decisões em Alpha Protocol é, genuinamente, recompensador, e implicitamente, formar relações com outras personagens também o é, e para isto muito contribui um bom guião e actuações. É certo que o argumento é extremamente complicado, com reviravoltas sobre reviravoltas, mas para um argumento de espionagem internacional, dificilmente é um mérito ser claro.
E isto compensa os problemas? Compensa os gráficos ligeiramente-acima-da-média? As lutas contra boss estúpidas e frustrantes para quem se especializa em subterfúgio e furtividade (não deveria ser isto o principal para um agente secreto?)? Os bugs ocasionais, as habilidades desproporcionalmente poderosas (com a habilidade de nível máximo de futividade, é literalmente possível estar em pé à frente de um inimigo sem ser visto)? Compensa os controlos ocasionalmente frustrantes e falíveis? O sistema de gravação retrógrado e por vezes inconveniente?
Bem, para mim compensa. Apesar de toda a sua inaptidão técnica (e primeira missão medíocre) joguei e voltei a jogar Alpha Protocol obsessivamente, e depois de terminar a versão PS3 comprei a versão PC para o poder jogar a uma maior resolução.
Se calhar sou eu que tenho tendencia para me meter em relações auto-destrutivas, mas mesmo reconhecendo os seus vários problemas, Alpha Protocol é um dos meus jogos favoritos deste ano, e espero que se façam mais como ele.
Alpha Protocol foi desenvolvido pela Obsidian Entertainment para a SEGA, e é distribuído em Portugal pela Ecofilmes, que nos disponibilizou a versão PS3 para análise. Está disponível para PS3, Xbox 360 e PC (Windows).
















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